terça-feira, 22 de novembro de 2011

Impressões sobre o texto “O caminho do campo” de Martin Heidegger (1889-1976), publicado em 1949 e traduzido por Ernildo Stein.



Não me surpreenderia saber que todas as pessoas têm um cantinho onde se isolar e enfrentar os fantasmas que as assombram a mente e as impedem de enxergar o que de fato é; como é e porque é. “Quando os enigmas se acotovelavam e nenhuma saída se anunciava, o caminho do campo oferecia boa ajuda (HEIDEGGER, 1949)”.

Segundo Heiddeger, o caminho do campo lhe proporcionava paz de espírito e lhe ajudava a organizar os pensamentos; dando-lhe condições de interpretar obras de grandes filósofos e assim, fosse capaz de produzir novas obras. Todo o cenário ao redor, a leve brisa do vento, o cheiro de terra e das plantas à beira do caminho; e o som do farfalhar das folhas colaborava para que atingisse o estado de espírito ideal para suas reflexões.

Nesse caminho, Heiddeger praticava o exercício da libertação por meio do conhecimento. Este possível por meio da inspiração que o caminho do campo lhe proporcionava. Inspiração simples esta, dada gratuitamente para os humildes em coração que estivessem dispostos a recebê-la e a ouvi-la. Seria esta uma força divina?

Ao meu entendimento, o texto de Heiddeger nos deixa claro o quanto importante são as coisas simples da vida que nos devolve a sensação de que, estamos satisfeitos e nada nos fora tirado. Onde, por fim, o simples e humilde é elevado e uma experiência celestial é possibilitada.



O CAMINHO DO CAMPO
(Der Feldweg – 1949)
In Gesamtausgabe Nº 013 – Aus der Erfahrung des Denken
(Sobre a Experiência do Pensar)
Trad. Ermildo Stein 
MARTIN HEIDEGGER


Do portão do Jardim do Castelo estende-se até as planícies úmidas do Ehnried. Sobre o muro, as velhas tílias do jardim acompanha-o com o olhar, estende ele, pelo tempo da Páscoa,seu claro traço entre as sementeiras que nascem e as Campinas que despertam ou desapareça, peno Natal, atrás da primeira colina, sob turbilhões de neve. Próximo da cruz do campo, dobra em buscas da floresta. Saúda, de passagem, à sua orla, o alto carvalho que abriga um banco esquadrado na madeira crua.

Nele repousava, às vezes, este ou aquele texto dos grandes pensadores, que um jovem desajeitado procurava decifrar. Quando os enigmas se acotovelavam e nenhuma saída se anunciava, o caminho do campo oferecia boa ajuda: silenciosamente acompanhava nossos passos pela sinuosa vereda, através da amplidão da terra agreste.

O pensamento sempre de novo as voltas com os mesmos textos ou com seus próprios problemas, retorna a vereda que o caminho estira através da campina. Sob os pés, ele permanece tão próximo daquele que pensa quando do camponês que de madrugada caminha para a ceifa.

Mais freqüentemente com o correr dos anos, o carvalho a beira do caminho leva a lembrança aos jogos da infância e as primeiras escolhas. Quando, as vezes, no coração da floresta tombavam um carvalho sob os golpes do machado,meu pai logo partia, atravessando a mataria e as clareiras ensolaradas, à procura do estéreo de madeira destinado à sua oficina. Ela lá que trabalhava solicito e concentrado, nos intervalos de sua ocupação junto ao relógio do campanário e aos sinos, que, um e outro, mantém relação própria com o tempo e a temporalidade.

Os meninos, porém, recortavam seus navios na casca do carvalho. Equipados com bancos para o remador e o timão, flutuavam os barcos no Mettenbach ou no lago da escola. Nesses folguedos, as grandes travessias atingiam facilmente seu termo e facilmente recobravam o porto. A dimensão de seu sonho era protegida por um halo, apenas discernível, pairando sobre todas as coisas. O espaço aberto era-lhe limitado pelos olhos e pelas mãos da mãe. Tudo se passava com se sua discreta solicitude velasse sobre todos os seres. Essas travessias de brinquedos nada podiam saber das expedições em cujo curso todas as margens ficam para trás. Entrementes, a consistência e o odor do carvalho começavam a falar, já perceptivelmente da lentidão e da constância  com que a árvore cresce. O carvalho mesmo assegurava que só semelhante crescer significa: abrir-se à amplidão dos céus, mas também deitar raízes na obscuridade da terra; que tudo que é verdadeiro e autentico somente chega à maturidade se o homem for simultaneamente ambas a s coisas: disponível ao apelo do mais alto céu e abrigado pela proteção da terra que oculta e produz.

Isto o carvalho repete sempre ao caminho do campo, que diante dele corre seguro de seu destino. O caminho recolhe aquilo que tem seu ser em torno dele; e da a cada um dos que o percorrem aquilo que é seu. Os mesmos campos, as mesmas encostas  da colina escoltam o caminho em cada estação, próximos dele com proximidade sempre nova. Quer a cordilheira dos Alpes acima das florestas se esbata no crepúsculo da tarde, quer de onde o caminho ondeia entre os outeiros, a cotovia de manhã se lança ao céu de verão, quer o vento leste sopre a tempestade do lado em que jaz a aldeia natal da mãe, que o lenhador carregue, ao cair da noite, seu feixe de gravetos para a lareira, quer o carro da colheita se arraste em direção ao celeiro, oscilando pelos sulcos do caminho, quer apanhem as crianças as primeiras primaveras na ourela do prado, quer passeia a neblina ao longo do dia sua sombria massa sobre o vale, sempre e de todos os lados fala, em torno do caminho do campo, o apelo do mesmo.

O simples guarda o enigma do que permanece e do que é grande. Visita os homens inesperadamente, mais carece de longo tempo para crescer e amadurecer. O dom que desperta está escondido na inaparência do que é sempre o mesmo. As coisas que amadurecem e se demoram em torno do caminho, em sua amplitude e em sua plenitude dão o mundo. Como diz o velho mestre Eckhart, junta a quem aprendemos a ler e a viver, é naquilo que sua linguagem não diz que Deus é verdadeiramente Deus.

Todavia, o apelo pelo caminho do campo fala apenas enquanto homens nascidos no ar que o cercam forem capazes de ouvi-lo. São servos de sua origem, não escravos do artifício. Em vão o homem através de planejamento procura instaurar uma ordenação no globo terrestre, se não for disponível ao apelo do caminho do campo. O perigo ameaça, que o homem de hoje não possa ouvir sua linguagem. Em seus ouvidos retumba o fragor das máquinas que chega a tomar pela voz de Deus. Assim o homem se dispersa es e torna errante. Aos desatentos o Simples parece uniforme. A uniformidade entendia. Os entendiados só vêem monotonia a seu redor. O simples desvaneceu-se. Sua força silenciosa esgotou-se.

O numero dos que ainda conhecem o Simples como um bem que conquistaram, diminui, não há dúvida, rapidamente Esses poucos , porém, serão, em toda parte, os que permanecem. Graças ao tranqüilo poder do caminho do campo, poderão sobreviver um dia as forças gigantescas da energia atômica, que o calculo e a sutileza do homem engendraram para com ele entravar sua própria obra. O apelo do caminho do Campo acorda um sentido que ama a liberdade e, no lugar oportuno, suplantará as aflições numa ultima serenidade. Esta se opõe a desordem de só trabalhar, uma desordem que, buscada por si mesma, favorece o nada negativo.

No ar do caminho do Campo, variável com as estações, nasce e se cria uma jovialidade sábia, cujo semblante muitas vezes parece carregado. Este saber jovial é a “Serenidade”[1][1]. Quem não a possui não poderá adquiri-la e quem a possui é do caminho do Campo que a tem, em sua via se encontram a tormenta do inverno e o dia da colheita, em sua via se cruzam a mobilização estimulante da primavera e o fenecer tranqüilo do outono.

A Serenidade sábia é uma abertura para o eterno. Sua porta gira nos gonzos que um hábil ferreiro forjou, um dia, com os enigmas da existência.

Das baixas planícies do Ehnried o caminho retorna ao jardim do Castelo. Galgando a última colina sua estreita faixa transpõe uma depressão e chega as muralhas da cidade. Uma vaga luminosidade desce das estrelas es e espraia sobre as coisas. Atrás do castelo alteia-se a torre da igreja de São Martinho. Vagarosamente, quase hesitantes, soam as badaladas das onze horas, desfazendo-se no ar noturno. O velho sino, em suas cordas outrora mãos de menino se aqueciam rudimente, treme sobre o martelo das horas, cuja silhueta jocosa e sombria ninguém esquece.

Após a última batida, o silencio ainda mais se aprofunda. Estende-se até aqueles que foram sacrificados prematuramente em duas guerras mundiais. O Simples torna-se ainda mais simples. O que é sempre o Mesmo desenraiza e liberta. O apelo do caminho do campo é agora bem claro. É a alma que fala? Fala o mundo? Ou fala Deus? Tudo fala da renúncia que conduz ao Mesmo. A renuncia não tira. A renúncia dá. Dá a força inesgotável do Simples. O apelo faz-nos de novo habitar uma distante origem, onde a terra natal nos é devolvida.


[1][1] Existe uma grande problemática na tradução deste termo em alemão, o texto original diz o seguinte: In der jahrenzeitlich luft dês Feldweges gedeiht die wissende Heiterkeit daren Meine oft schwermutig scheint. Dieses heiterm Wisser, ist das “Kuinzige”. Niemand gewinnt es, der es nicht hat...Die wissende Heiterkeit ist ein Tor zum Ewigen. Seine Tür dreht sich den Angeln, die aus den Ratseln dês Daseins bei einem kundigen Schmied einst geschmiedet worden. O dialeto “Kuinzige” é próprio da Suábia do Sul, região onde fica a cidade de Messkich , cidade natal de Heidegger, corresponde etimologicamente à “keinnutzig” bom para nada’. A Profª Maria do Carmo Tavares de Miranda, traduziu este termo como “Sapiente Serenidade”, algo que se aproxima do termo em volga “alegria que se sabe”. E para finalizar dizendo que: designa hoje, um estado de serenidade, livre e alegre, que gosta de dissimular, marcada por uma ironia afetuosa e um toque de melancolia sorridente, sabedoria que só se mostra veladamente. Heidegger quer aqui, neste momento, um retorno ao termo serenidade, um grande retorno a serenidade.

Fonte da imagem:  http://www.gettyimages.pt/detail/foto/country-road-through-forest-imagem-royalty-free/77027379

terça-feira, 1 de novembro de 2011

A Medicina e a Igreja

Trabalho apresentado no curso de graduação da Universidade Metodista de Piracicaba, Faculdade de Ciências Humanas, Curso de Licenciatura em História e Licenciatura em Filosofia, para avaliação da disciplina de História Medieval.

Por Andrea Mascarello, Andrea Ruocco, Daniela Smeets e Felipe Lucate, sob orientação da Prof. Dra. Karla Bessa.


Introdução

Este trabalho parte de percepções após a leitura da obra A Feiticeira de Jules Michelet. A delimitação do tema, dentre tantos aspectos únicos que caracterizam esta personagem, surge da nossa curiosidade em compreender um âmbito que acentua esta mulher tão rica e complexa apresentada pelo autor. Assim, pensando também nas doenças que assolavam os povos e nos recursos utilizados no medievo para lidar com algo “tão assustador”, buscamos compreender quem é esta feiticeira que cura, sua relação com as plantas e as florestas (que serão seus principais instrumentos) e qual é a medicina da época da qual a feiticeira dialoga e contribui.


Alguns apontamentos sobre Michelet e a Feiticeira
Esta obra, escrita 1862, traz muito mais que um estudo historiográfico. Jules Michelet, nascido em 1798 em Paris, professor no Collège de France e tendo um acervo riquíssimo em mãos ao ser chefe da seção histórica dos arquivos nacionais, trabalha algo inusitado para os estudos do século XIX: coloca a mulher no centro da história, como mote de mudança social e cultural, e, fugindo dos grandes personagens, desmonta toda narrativa metódica e positivista que compõe a passagem do século XIX para o XX, trazendo a esfera do popular para narrar a Idade Média:

“(...) Michelet, para quem o povo conta mais antes de tudo, sentira-se à vontade na Idade Média e ajuda-nos pois a encontrar, se não a realidade social, pelo menos a imagem de uma época desta mesma realidade. Mas Michelet, sondando o popular, vai mais longe e mais perto.
(...) Avançando pelos silêncios da história, Michelet descobriu uma Idade Média das margens, da periferia, da excentricidade que pode e deve inspirar ainda o medievalista hoje (LE GOFF, 1980, p. 40-41)."

Além de trazer esta mulher tão marginalizada e lhe tirar o silêncio em um texto sensível que a enaltece, o autor, que permeia as gerações românticas ao saber aliar erudição e poesia (LE GOFF, 1980), dá sinestesia às suas fontes através de uma escrita mais literária, porém, não menos consistente. Assim, encontramos A Feiticeira e sua relação com a medicina.


A medicina, as doenças e os recursos do medievo

Muitas foram as doenças que assolaram a população na Idade Média, doenças que já faziam parte da vida cotidiana: “(...) As doenças da Idade Média, tanto quanto se pôde aperceber, embora indefinidas, foram, principalmente, a fome, a inanição e a depauperação sanguínea. Tal é o quadro com que se defrontam as artes plásticas da época (MICHELET, 1976, p. 93)."

A fome era um fator importantíssimo para a propagação de doenças, visto que foi uma época de agricultura fraca por conta do solo devastado na maioria do território europeu. É importante também ressaltar as péssimas condições de higiene daquele tempo, sendo que o lixo, por exemplo, era atirado das oficinas e das casas, direto para as ruas, trazendo uma acumulo de ratos, insetos e pulgas, sendo que os mesmos eram responsáveis pela transmissão de uma das principais doenças da Idade Média: a peste bubónica, conhecida por peste negra.

O primeiro caso de peste negra na Europa foi, na Itália, no ano de 1347. A doença, que veio do Oriente, logo se espalhou e com a facilidade que ela encontrou de se propagar devido à sujeira e ao lixo, no ano seguinte, 1348, em Portugal, matou cerca de um terço da população. A concepção da importância que a higiene e a limpeza local tinham para a saúde só surgiu muito tempo depois, no século XIX.

Outras doenças da época são a lepra, o sarampo, a tuberculose, a varíola e a escarlatina. Para a lepra, que é uma doença que causa infecções na pele, devido ao medo do contagio, o procedimento era afastar os doentes e, na maioria das vezes, haviam algumas leis que proibiam os leprosos de entrarem nas cidades. Costumava-se também construir casas, que eram chamadas de leprosarias ou gafarias, para onde eram mandadas as pessoas contagiadas pela doença, podendo conviver juntas. Esses locais eram geralmente construídos distantes das cidades, justamente para prevenir o contágio da população.

Já para as demais doenças citadas, como Sarampo, Tuberculose, Varíola e Escarlatina (doença que atingia principalmente as crianças), não se tinha tratamento. A grande parte da população acreditava que a melhor maneira era conviver com a doença ou aceita-la como um castigo de Deus.

Acreditava-se também, em relação à alguns reis, como por exemplo o rei da França Filipe I, e da Inglaterra, Henrique I, que apenas com o toque de suas mãos era possível que os reis pudessem curar as pessoas. Muitos reis, no contato com os camponeses, tinham suas vestes tocadas pelo povo, pois se acreditava que esse gesto ajudaria na plantação, resultando em uma boa colheita.

“(...) Dos reis de França, desde Filipe I, pelo menos, provavelmente, depois de Roberto o Piedoso, dos res de Inglaterra, depois de Henrique I, dizia-se que curavam certas doenças pelo contacto das suas mãos. Quando, em 1081, o imperador Henrique IV - apesar de excomungado – atravessou a Toscânia, os camponeses que acorreram ao seu encontro, esforçavam-se por tocarem o seu vestuário, persuadidos de, assim, garantirem colheitas felizes (BLOCH, 1987, p. 418)."

Mas ainda assim, com todos esses fatores presentes no cotidiano do povo medieval, a medicina tinha alguma funcionalidade. Basicamente, a maioria dos médicos era de origem árabe ou judaica, mas poucos tinham acesso aos serviços prestados por eles. “Exceto pelo médico árabe ou judeu, pago a peso de ouro pelos soberanos, a medicina só era praticada nos umbrais das igrejas e às vezes nos batistérios (MICHELET, 1976, p.93)."
Algumas cirurgias já eram realizadas naquela época, mas com muita precariedade, apenas em casos de risco de morte. Sem conhecimento nenhum sobre anatomia humana, e muito menos sobre anestésicos ou antissépticos confiáveis, as cirurgias eram muito dolorosas, ou seja, o paciente com dor deveria, sem nenhuma outra opção de escolha, se submeter a mais dor para tentar se curar. Muitas vezes essas cirurgias eram realizadas por monges que tinham acesso a alguma literatura médica. Mas, em 1215, a Igreja não tardou em proibir essa prática, sendo que o papel de cirurgião acabou, por muitas vezes, sendo adotado pelos fazendeiros, que tinham alguma prática no atendimento a animais.

Uma prática muito popular na Idade Média era a sangria, pois se acreditava que curava qualquer doença. Os médicos também acreditavam que as doenças em geral podiam ser causadas por um inchaço do corpo, por excesso de líquido no corpo. A sangria podia ser realizada com sanguessugas, ou simplesmente com um corte na veia, cotidianamente feito no braço.

As mulheres grávidas tinham um sofrimento ainda mais agudo. Sem quase nenhum aparato, os partos eram muito dolorosos, habitualmente realizados por parteiras, que mais tarde foram perseguidas pela Igreja por se utilizarem de métodos para avaliar as dores das pacientes. Quando o bebê estava morto, ainda dentro do útero da mãe, se utilizava uma espécie de faca, para tirar o bebê de dentro da paciente e para “facilitar” a retirada do feto.

Alguns artefatos médicos e cirúrgicos já existiam como uma espécie de seringa, um tipo de anestésico composto por suco de alho, suco de cicuta, ópio, vinagre e vinho que era dado ao paciente antes de uma cirurgia, mas que, em alta dosagem poderia levar o paciente a morte. Outro exemplo era uma agulha, especialmente destinada para cirurgias de catarata, em que o instrumento era levado até o fundo do olho do paciente e na maioria das vezes não surtia efeito algum, pelo contrário, a visão ficava ainda mais debilitada.

Em sua maioria, o tratamento médico da Idade Média era baseado em concepções científicas, crenças pagãs e religiosas. Um exemplo de medicina, que misturava muito bem essas três práticas, era a de Paracelso, importante médico do período Medieval, hoje considerado o pai da homeopatia, do qual trataremos mais adiante.


A medicina e a Igreja

Desde o início da era cristã, a medicina era, e talvez seja até hoje, sob alguns aspectos, mal vista pela Igreja. Era considerada uma prática de feitiçaria, proveniente de Satanás, o príncipe do mundo. A mulher medieval, que possuía uma relação estreita com a natureza, era de certa forma, condicionada a aprender seus mistérios e a manipulá-la. Essa prática logo levaria o ser humano à morte como também o livraria de doenças e maldições que assolavam a época.

“A natureza fê-las feiticeiras.” É o espírito próprio da Mulher e o seu temperamento. Ela nasce Fada. Pelo retorno regular da exaltação, é Sibila. Pelo amor, torna-se Mágica. Pela finura e a malícia (muitas vezes fantasiosa e benéfica), é Feiticeira e enfeitiça, ou pelo menos adormece e ilude os males (MICHELET, 2003, p. 11)."

Para a Igreja, todo sofrimento era o preço do pecado e toda a cura para os males era o arrependimento e a fé. No entanto, esta começou a se desesperar com as obras de feitiçaria e seu desespero acabou destacando a feiticeira ainda mais.

Quanto às feiticeiras, não tinham muita escolha senão fugir e se isolarem nas florestas, pois a perseguição da Igreja e os processos eram tão rígidos que muitas delas foram torturadas e queimadas apenas por serem belas demais ou ricas (MICHELET, 2003). Eram obrigadas a pactuarem com Satanás e se considerarem suas esposas, afinal, como não existia a ciência dos dias de hoje, não sabiam explicar a reação de suas poções, portanto, se não vinha da Igreja (Deus), vinha de Satanás!

A mulher via em Satanás uma espécie de liberdade e justiça, ela crescia e adquiria maneiras de se defender e ser notada. Algumas pessoas, cansadas e cuja fé já não era suficiente para a cura de seus males, passaram a visitar as feiticeiras escondidos da Igreja. As feiticeiras faziam o destino e proporcionavam resultados mais rápidos do que o arrependimento e a oração. Ao passo que, a Igreja, depositava a esperança no arrependimento e na morte, pois o sofrimento era mais do que justo diante de uma vida pecaminosa.

Um novo mundo era descoberto com a feitiçaria, as médicas do medievo arriscavam muito e descobriam coisas incríveis. Com isso, a Igreja não teve muita opção senão liberar algumas dessas práticas medicinais, porém, estabeleceu critérios; quem ousasse curar sem ter estudado estaria comprando passagens diretamente para a fogueira. Entretanto, a mulher não podia estudar, pois muito provavelmente seria perseguida e violentada pelos cristãos na escola.

O poder da Igreja era muito grande que, por medo, muitas pessoas continuaram a freqüentá-la, mas a verdadeira missa, como propõe Michelet, acontecia à noite em meio aos pântanos onde os rituais de louvor ao esposo Satanás ocorriam e a medicina alcançava novos horizontes.


A feiticeira e sua contribuição na medicina

Se ora as doenças e pestes assolavam a população, se a fome era sua contribuinte, se os recursos médicos ainda precários e se a Igreja negligenciava o poder medicinal da flora e condenava sua utilização ligando-a a Satanás, a Feiticeira, em sua excentricidade [que somente era permitida por sua exclusão na floresta] se arriscava em suas experimentações já que “ninguém então pensava que, aplicados exteriormente, ou tomados em dose muito pequena, os venenos são remédios” (MICHELET, 2003, p.99). Muitas vezes estas mesmas plantas utilizadas em outros momentos (como as da família das Solanáceas, a doce-amarga Meimendro e a Beladona), levando o nome de plantas das bruxas, traziam as acusações de executoras de mortes e fabricantes de encantamentos. Nos rituais do Sabat, as ervas das feiticeiras misturadas ao hidromel dentre outras bebidas alcoólicas, punha a multidão a dançar luxuriosamente (em oposição às danças epiléticas que só aprofundavam o problema de agitação epilética comum do séc. XIV), e trazia uma revolução no que poderia se chamar de “reabilitação do ventre e das funções digestivas” (MICHELET, 2003, p.102).

Le Goff, ao interpretar esta personagem proposta por Michelet, dirá que o que salvou a Idade Média é o que ela própria condenou e martirizou:

“Michelet vê a fecundidade, sobretudo ao nascer das ciências modernas, dadas a luz pela feiticeira. Enquanto os clérigos e os escolásticos se enterravam em um mundo de imitação, de vaidade, de esterilidade, de antinatureza, a feiticeira descobria o corpo, o espírito, a medicinas, as ciências naturais.” (LE GOFF, 1980, p. 35)

Estas mulheres bruxas, que por serem mulheres já estavam à margem, na condição inatingível da Virgem pura, e que por serem mulheres eram privadas de voz e conhecimento – e seria inimaginável uma médica oficializada para época, encontravam sua força e autoridade no manuseio da natureza.

Sem dúvida, para tantas outras camponesas subjugadas, a Feiticeira foi seu único médico já que “nunca nesses tempos, a mulher teria admitido um médico homem, confiaria nele, lhes diria os seus segredos. As bruxas a observam sozinhas (...)” (MICHELET, 2003, p. 97-98). Eram obstetras, ginecologistas!

Porém seu reconhecimento [se é que podemos dizer que sua contribuição foi reconhecida] foi tardio tanto para ciência médica quanto para a historiografia e daí, mais uma vez, a importância desta obra.

Um dos poucos nomes, citado pelo autor, que exemplifica este conhecimento profundo das feiticeiras sobre processos de cura e manuseio das plantas para além do conhecimento já formalizado baseado sobretudo em médicos judeus e árabes, está na fala Paracelso:

“Onde teria ela vivido a não ser nos pântanos selvagens, essa infeliz tão perseguida, a maldita, a proscrita, a envenenadora que curava e salvava? A noiva do Diabo e do Mal encarnado, que tanto bem fez, como disse o grande médico da Renascença. Quando Paracelso, na Basiléia, em 1527, incendeia toda a medicina, declara nada saber além do que aprendeu com as bruxas (MICHELET, 2003, p. 14)."


Paracelso

Paracelso (1493-1541) foi um importante médico na Idade Média. Filho de um conceituado médico da época iniciou seus estudos na Alemanha, onde foi discípulo de um abade que era alquimista e se dedicava ao ocultismo.

Paracelso, que na verdade se chamava Philippus Aureolus Theophrastus Bombast von Hohenheim, adotou o nome de Paracelso (ou Paracelsus) por conta do médico Aulo Cornélio Celso, famoso médico romano do século I, e seu nome significa “para além de Celso”.

Além de médico, Paracelso foi ainda filósofo, alquimista, químico, astrólogo e atualmente é considerado o pai da medicina homeopática. Sua contribuição para essa nova medicina, se deve ao fato de Paracelso ser um dos primeiros médicos a valorizar a cultura pagã dentro da medicina da época.

“O único médico admitido ali por Satã, Paracelso, viu uma terceira personagem que às vezes se deslizava na assembleia sinistra e que representava a cirurgia. Era o cirurgião daqueles tempos de bondade, o carrasco, o homem de mão ousada, que manejava oportunamente o ferro, que quebrava os ossos e sabia juntar novamente, que matava e às vezes salvava (MICHELET, 1976, p. 15)."

Outras contribuições foram novos métodos para a patologia, farmácia, e para cirurgias. Em 1518 serviu como cirurgião na Guerra dos Países Baixos. Em 1528 produziu o primeiro manual de cirurgia. Já em 1530 fez uma importante descrição sobre a Sífilis, na qual ele afirma que a doença poderia ser curada apenas com algumas doses de mercúrio. Seus estudos sobre os a alquimia na medicina foram resgatadas no século XIX, assim surgindo a homeopatia conhecida nos nossos dias. Morreu em 1541, debilitado mentalmente e envaidecido pelo sucesso de seus estudos, em Salzburgo, hoje Áustria.


Conclusão

Com os apontamentos desse trabalho, tivemos uma breve percepção do quanto o próprio cenário contribuiu para o nascimento da feiticeira e, o quanto a própria Igreja a fez crescer. A medicina que, a princípio estava ameaçada, ganhou tanta força que a Igreja não teve muita opção senão aceitar algumas de suas práticas. Práticas das quais garantiram a sobrevivência dos povos e contribuíram para o desenvolvimento da medicina que temos nos dias atuais.


Referências Bibliográficas

FONTE DA IMAGEM : <http://mahabaratha.vilabol.uol.com.br/translation/bruxaria11.jpg>. Acesso em: 01/11/11.
BLOCH, Marc. A Sociedade Feudal. Lisboa: Edições 70, 1987.
GUIA DO ESTUDANTE – Medicina na Idade Média: Doutor Sinistro. Disponível em: http://guiadoestudante.abril.com.br/estudar/historia/medicina-idade-media-doutor-sinistro-433440.shtml. Acesso em: 23/10/11.

HYPE SCIENCE – Dez agonizantes tratamentos da Idade Média. Disponível em: <http://hypescience.com/dez-tratamentos-agonizantes-da-idade-media/>. Acesso em: 17/10/11.

LE GOFF, Jacques. As Idades Médias de Michelet. In:_ Para Um Novo Conceito de Idade Média. Civilização do Ocidente medieval. Lisboa: Estampa, 1980. p. 19-60.

MICHELET, Jules. A Feiticeira. Tradução de Ana Moura. São Paulo: Aquariana, 2003. 142 p.

MICHELET, Jules. A Feiticeira. Tradução de Ronaldo Werneck. São Paulo: Círculo do Livro, 1976, 2 ed. 308 p.

PORTAL PARSIFAL – Biografia Paracelso. Disponível em: <http://www.nautilus.com.br/clientes/pontes/biografia/paracelsus.htm>. Acesso em: 17/10/11.

VEIAS DA HISTÓRIA – Doenças na Idade Média. Disponível em: <http://veiasdahistoria.blogspot.com/2011/06/doencas-na-idade-media.html>. Acesso em: 17/10/11.

domingo, 23 de outubro de 2011

Artigo sobre política, educação e docência



No filme “Pro dia nascer feliz”, direção de João Jardim, lançado no ano de 2007, podemos ver a relação entre os alunos e o ambiente escolar, assim como, algumas questões políticas e de caráter socioculturais que circundam este cenário.

O filme nos mostra o drama dos alunos em relação à educação em escolas de diversas regiões e diferentes classes sociais e nos permite fazer uma comparação com quatro causas que, segundo Comenius, educador tcheco (1592-1670) acredita serem os pilares da “desordem escolar” (CORTELLA, 1999).

A primeira das causas trata-se da ignorância, onde muitos acreditam que a escola tem um caráter profético cuja responsabilidade é moldar o aluno e encaminhá-lo ao “céu”, ou seja, conduzi-los num caminho onde o sucesso e a felicidade sejam garantidos. Ao passo que muitas outras pessoas veem a escola como um passatempo apenas, pois a prática fora da sala de aula é totalmente diferente. O aluno é e sempre será uma peça em meio a um jogo cujas regras são estabelecidas pela classe dominante.

Diante dessa visão pessimista, podemos ponderar que, muitas vezes há inveja por parte de pais e familiares que, quando mais novos não tiveram a mesma oportunidade de estudar e foram condicionados a outras atividades. Por essa razão, transferem o fardo para os filhos acreditando que é o melhor a se fazer. O importante é começar a trabalhar duro desde cedo para ser alguém na vida e fazer o que o senso comum chama de “pé-de-meia”.

Ainda no filme podemos observar a dificuldade que poucos alunos interessados em aprender alguma coisa têm para alcançarem as escolas. Muitas são longínquas demais, o transporte público nem sempre está em condições de ser utilizado e, quando muitas vezes essas questões são vencidas, o esforço do aluno não é reconhecido pelo corpo docente e nem pelos pais, gerando assim desamparo e, consequentemente, exaustão e desinteresse pela escola.

Além de todos esses fatores de caráter socioculturais, há as questões políticas e econômicas que, que oprimem e restringem o ensino a especificidades que estimulam o progresso da classe dominante (SAVIANI, 1989). Não podemos compreender atualmente a educação sem a influência política e vice-versa. Essa relação é facilmente entendida a partir do segundo grau, onde é notável uma preferência pelo ensino técnico e um desinteresse pelos valores éticos e morais dos indivíduos. A qualidade do ensino que há muito tempo atrás se caracterizava pela formação de valores e alunos capazes de pensarem e colaborarem para o desenvolvimento social ganhou um novo significado e, uma nova maneira de ser medida. Nos dias de hoje, a qualidade do ensino se caracteriza basicamente pelo retorno que isso dará ao indivíduo, sua utilidade, status, praticidade etc. (SILVA, 2009). É até difícil pensar de maneira diferente em se tratando do mundo globalizado em que vivemos onde o capitalismo é predatório e cada um é por si.

Do ponto de vista do corpo docente, é muito comum escutarmos reclamações sobre determinados alunos e desinteresse, pois muitos não consideram o ambiente do qual o aluno veio e qual sua bagagem anterior de vida, assim como, reclamam por não ter condições favoráveis de transmitir o pouco de conhecimento que têm.

Essa é uma situação histórica que não mudará facilmente em pouco tempo e com poucas pessoas, mas talvez com bastante tempo e um mínimo de esforço de muitas pessoas, a partir do momento em que a educação passar a atender tanto o interesse social quanto o interesse dos indivíduos (SANTOS, 2010).

Diante disto, o professor se vê na posição de um mediador, o qual deve ser capaz de auxiliar o aluno a mesclar conhecimento que trás de fora da escola com o conhecimento ganho em sala de aula. Do contrário, se a situação da educação continuar caminhando de forma subordinada às classes econômica e política, os interesses dos indivíduos consequentemente serão todos iguais (CORTELLA, 1999). A educação será absorvida totalmente pela política, ocasionando assim, a própria queda do estado e a preparação do terreno para cultivo da educação fundamentada na formação de valores éticos e morais.


Referência Bibliográfica



SANTOS, Milton. Os deficientes cívicos. Disponível em <http://www1.folha.uol.com.br/fol/brasil500/dc_3_9.htm> Acessado em: 23/10/2011

CORTELLA, M. S. Conhecimento Escolar: Epistemologia e Política. In: A escola e o conhecimento: fundamentos epistemológicos e políticos. São Paulo: Cortez, Instituto Paulo Freire, 1999. p. 129-159.

SAVIANI, D. Onze teses sobre Educação e Política. In: Escola e Democracia. São Paulo: Cortez, 1989.

SILVA, M. A. Qualidade social da educação pública: algumas aproximações. Caderno CEDES, Campinas, v. 29, n. 78. maio/ago. 2009. Disponível em: www.scielo.br/pdf/ccedes/v29n78/v29n78a05.pdf. Acessado em: 23/10/2011

Fonte da imagem: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiKZaNrBZCofRwV_8vodnfnh_bkyCz_4eksAhw_lD5IQqinyI3Fgor3GSQFggdAn3DEeCDVYdEFhyphenhyphenI3ABZw2Lwpvd_6XThpGWe8Se042KaY45ke1cSzscWh3IhoCSpM0loRcGlh_D6REg/s1600/charge-educacao.jpg

sábado, 30 de julho de 2011

Análise do filme "Clube da Luta"


Oi!

Já assistiram o filme "Clube da Luta"? Para quem ainda não assistiu, eu recomendo, pois trata-se de um filme que gira em torno de uma trama psicossomática muito interessante.

Deste filme podemos tirar boas lições, por isso, resolvi compartilhar a minha interpretação sobre o mesmo.

O filme é composto de 36 cenas, porém, nesse primeiro texto falarei apenas das 6 primeiras para não esgotar a paciência de vocês.



Título Original: Fight Club (1999)
Diretor: David Fincher
Roteiristas: Chuck Palahniuk, Jim Uhls
Elenco: Brad Pitt, Edward Norton e Helena Bonham Carter


Análise do filme "Clube da Luta"

Cena 1: Centro do Medo

Jack (Edward Norton) se dá conta de que a vida dele é uma merda infeliz e sem sentido. As pessoas são hipócritas e ele não poder fazer nada para mudar. Por isso, acaba se rebelando e desenvolvendo uma dupla personalidade de acordo com o que ele desejava ser no fundo de sua alma, Tyler Durden (Brad Pitt). Durden encarnava o poder, beleza, rebeldia, tudo que Jack gostaria de ser.

Ciente de que nada poderia fazer para mudar o seu redor, Jack percebe que a única alternativa é mudar a si mesmo e mergulhar profundamente no cerne de sua alma. Olhar para dentro de si mesmo e reconhecer os erros, medos, desejos e controlar as próprias emoções é o maior desafio de todos.

Cena 2: Ponto de Explosão

Nessa cena restam apenas alguns minutos para foder tudo que um conjunto de prédios exploda e vire cinzas. Essa explosão é o que acontece dentro do ser humano quando é confrontado e se sente ameaçado por alguém ou alguma coisa. Nos primeiros minutos de confronto é onde se comete as maiores besteiras: xingar, bater, dar um pula pirata, ofender uma pessoa amada, se fazer de vítima e cair no coitadismo (CURY, 2008, p.116). Quando isso acontece, as emoções são tantas que ficam, muitas vezes, impossíveis de controlar. A vítima dessas reações impensadas pode se tornar opressora de outra pessoa e isso irá desencadear uma destruição em massa.

Cena 3: Insônia / Cena 4: Instinto de Proteção

A dificuldade em lidar com as intempéries do dia-a-dia meche com a cabeça. Adquire-se tantas preocupações que fica impossível se concentrar em alguma coisa. Muitas vezes essas preocupações que não são controladas tiram o sono e tornam o ser humano ansioso e consumista. Jack passa a comprar compulsivamente coisas para seu apartamento como se isso fosse acabar com a sua desgraça resolver os problemas de sua vida.

Cena 5: Os Homens Sobreviventes do Câncer

Jack passa a freqüentar sessões de terapia em grupo. Nessas sessões percebe que há várias pessoas que têm tantos problemas quanto ele, até maiores. Nessas sessões ele se sente compreendido e amado, pois as pessoas compartilham o fardo que carregam entre si e, portanto, encontram forças para superar seus traumas, decepções e medos e seguir adiante. O câncer no título da cena pode ser entendido como um problema qualquer de grande impacto.
 
Cena 6: Força Animal

Jack se recolhe e se interioriza. Encontra dentro se si mesmo ferramentas que lhe ajudarão a superar as dificuldades. Quando o homem se torna mais consciente de sua própria personalidade e de seus comportamentos, encontra caminhos alternativos para a vida. Jack ia para as sessões de terapia mal e saia de lá bem, como se fosse capaz de tudo.

Não deixem de assistir ao filme e compartilhar sua opinião. Continua... 


Referencia Bibliográfica:

CURY, Augusto. O Código da Inteligência: a formação de mentes brilhantes e a busca pela excelência emocional e profissional. Ed. Thomas Nelson Brasil/Ediouro, Rio de Janeiro, 2008

Fonte da Imagem: http://img.grandescolecoes.com.br/2011/post225/fight-club.jpg
Acesso em: 30/07/2011 15:54

quarta-feira, 27 de julho de 2011

O Sonho de Stela

O Sonho de Stela


Stela estava aflita e não conseguia dormir. Segurava firme a coberta deixando apenas os olhos de fora fixarem o teto estrelado de seu quarto. Podia ouvir o assobio do vento e o forte barulho das gotas de chuva ao colidirem com a janela.

Descobriu-se ligeiramente e se levantou para fechar as cortinas quando percebeu o vapor de sua respiração e um longo arrepio percorreu-lhe a espinha. Assustada contornou a cama e ajoelhou-se para rezar. Em sua oração ela dizia:
 
- Obrigado Senhor, por mais este dia e por tudo. Perdoe meus pecados e protegei-me enquanto durmo. Amém.

Fez o sinal da Santíssima Trindade e deitou-se novamente. Permaneceu ali coberta e observando a pintura do teto de seu quarto até que finalmente adormeceu. Não tardou a começar a sonhar.

- Stela! Stela! Venha até mim. Não tenha medo.

Stela abriu os olhos assustada e percebeu que já não estava mais em seu quarto. Sua cama encontrava-se em meio a um bosque onde havia muitas árvores quase nuas, as folhas secas cobriam o que parecia ser o único caminho a ser percorrido.

Havia também uma lagoa com alguns patinhos e o coaxar de alguns sapos felizes a saltitar.

Quando Stela olhou para si ficou surpresa, pois abandonara o pijama rosa que havia colocado para dormir e usava agora um lindo vestido branco com babados que combinava com os sapatos. Notou também que usava duas fitas no cabelo.

Estava completando 14 anos de idade e queria voltar para o seu quarto, pois estava com medo e sua mãe ficaria preocupada se não a encontrasse em plena data de seu aniversário.

Ao descer da cama, sentiu seus pés amortecidos como se estivesse pisando em um travesseiro novo, mas era uma pena. Pisava sobre a pena branca mais bonita, macia e grande que já havia visto em toda a sua vida. Pegou a mesma e alisou-a para corrigir as marcas deixadas pelo sapato e se distraiu brincando quando de repente:

- Stela! Venha até mim.

A voz que a chamava era forte, mas doce. Stela queria voltar a dormir e acordar, mas estava muito curiosa para saber de quem era a voz que, persistentemente a chamava.

Começou a seguir pelo pequeno caminho coberto de folhas secas, observando as mais diversas árvores e aves que cortavam o céu. Ficou admirada com tanta beleza, pois nunca havia visto um jardim tão bonito.

À medida que caminhava, a voz se tornava cada vez mais próxima, porém, o trajeto parecia não ter fim. Lembrou então, que, sua mãe costumava visitá-la todos os dias no quarto antes de dormir para cobri-la, e ficaria muito preocupada se não encontrasse a filha.

Começou a correr desesperada para descobrir de onde vinha a doce voz e então poder finalmente voltar para sua cama e despertar do seu sonho. Mas, ao ouvir o chamado, assustou-se e tropeçou caindo de joelhos numa superfície dura, diferente do caminho pelo qual corria.

Levantou-se praguejando e espanou os joelhos e a barra do vestido. Recolheu a pena que havia escapado de suas mãos e então, notou um brilho dourado na superfície que chamou sua atenção. Abaixou-se novamente e tirou as folhas do local descobrindo uma enorme lápide de mármore negra com o seu nome entalhado em letras douradas e uma segunda pena idêntica a que estava segurando.

Sentiu um frio nas entranhas e a respiração ficar mais curta e acelerada quando, ouvia novamente a voz que dizia:

- Estou aqui. Não tenha medo.

Olhou para os lados rapidamente e não viu ninguém, mas então, sentiu uma luz muito forte no alto que se fundia com seus olhos azuis e foi tomada por uma sensação de paz. Não sabia o que era aquela luz, mas conforme se aproximava, foi tomando forma até que Stela pôde ver um anjo, que, ao farfalhar as enormes asas brancas, emanava perfume de Lírio inebriante.

O anjo então, a abraçou com suas asas e a levou consigo até desaparecer entre as nuvens. Stela estava em paz e já não tinha pressa para voltar.

Por volta das 1:06 horas, a mãe de Stela entrou no quarto para cobrir a filha e se deparou com a garota pálida e sem respirar, que segurava junto ao peito as duas enormes penas brancas. Todos os dias desde então, quando entrava no quarto, sentia paz e o perfume de Lírios.

 Fonte da imagem: http://ultradownloads.uol.com.br/papel-de-parede/Pena-Branca/

quinta-feira, 21 de julho de 2011

O Passeio

Olá pessoal,

Está ficando cada vez mais difícil de escrever por conta da correria do dia-a-dia, mas hoje trago algo novo de minha própria autoria.

O texto a seguir é uma anotação de um sonho que tive, eu apenas consolidei as idéias e as coloquei numa ordem que faça sentido. Futuramente pretendo trabalhar melhor esse texto e extendê-lo com maiores detalhes.

Nesse texto escrevi sobre um mundo assolado pelos cavaleiros do apocalipse: Conquista, Guerra, Fome e Morte, mas que ainda assim, cheio de esperança e escolhas.

Espero que gostem.


O Passeio

Montagem feita por Rodolpho Máximo Fernandes


O sol brilhava forte no alto, Miguel pôde observá-lo da janela de seu quarto ao despertar. Sentiu um pequeno incômodo no estômago, lembrou-se que não havia jantado na noite anterior e que não tinha nada para o café da manhã. 

Decidiu então, levantar e sair de carro pela cidade a fim de comprar mantimentos e também para se divertir, afinal, estava de férias do trabalho e, portanto, deveria investir o tempo livre nas coisas que gostava de fazer. Dirigir era uma delas. 

O barulho do motor do Ford Maverick de 8 cilindros soava como música para os ouvidos de Miguel. Herdou o carro de seu pai, que havia se preocupado em deixá-lo em perfeitas condições.

O único empório que ainda estava ativo, ficava a 66,9 KM da cidade de Nascimento e havia um só trajeto a ser feito, uma vez que muitas ruas haviam sido severamente castigadas pelas chuvas fortes e frequentes.

Miguel iniciou seu percurso pela Rua Pirgoto e ligou o toca fitas para ouvir sua banda favorita, AC/DC. A música que estava tocando era Highway to Hell e estava quase na metade quando parou no primeiro semáforo. Tinha então três opções, esperar o sinal verde e seguir, virar para a direita ou virar para esquerda.

Quando Miguel olhou pela janela direita, viu um rapaz ceder o taxi que havia chamado à um casal de idosos. Também viu duas crianças rodando peões na calçada e sorrindo, e viu também uma moça que havia interrompido sua corrida para afagar um pequeno cachorro de rua.

Ao olhar pela janela esquerda, Miguel viu um homem aparentemente bem sucedido - que havia conquistado status social - desprezar um mendigo que, com lágrimas nos olhos, suplicava por uma moeda.
Viu também uma família que foi obrigada a se levantar da mesa de um restaurante para ceder lugar a um grupo de pessoas engravatadas. Não havia espaço para os mais humildes e generosos.

O sinal ficou verde e Miguel seguiu adiante refletindo sobre o que tinha acabado de ver. Mas alguns quilômetros adiante se deparou com outro sinal vermelho. Quando olhou pela janela direita, viu um casal de namorados se abraçando, um menino ajudando uma idosa a atravessar a rua, e pessoas de várias raças, cores e crenças juntas jogando bola. Mas quando olhou pela janela esquerda, viu essas mesmas pessoas separadas em grupos ofendendo umas as outras, um ônibus sendo depredado e pessoas pensando apenas em si mesmas.

Assim que o sinal abriu, Miguel seguiu em frente e rodou por mais alguns quilômetros pensando sobre o que havia presenciado. Parou então no terceiro sinal. Do lado direito havia frutas de todos os tipos, uma família fazendo piquenique, e um menininho repartindo o último pedaço de bolo com o irmão. Ao passo que, do lado esquerdo, as plantas estavam mortas e a fome assolava as pessoas. Os supermercados estavam com preços exorbitantes e ninguém tinha condições de se alimentar devidamente.

Quando o sinal abriu, Miguel saiu cantando pneus, pois o que tinha visto era muito forte. Desejou que seu Maverick não tivesse janela esquerda.

Por fim deparou-se com o quarto e último sinal fechado. Ao olhar pela janela direita, viu botões florescendo, um filhote de passarinho em seu primeiro vôo, e uma família comemorando após ter recebido a notícia de que um novo membro havia acabado de nascer. Não resistindo, olhou pela janela esquerda e viu pessoas morrendo por doenças, espancamentos, acidentes, causas naturais. Viu a morte em suas diversas faces.

Desesperado, acelerou forte e seguiu adiante.

Ao chegar ao pequeno empório onde sanaria sua fome, compraria medicamentos e itens para sua própria segurança, percebeu que havia esquecido sua carteira em casa e precisou voltar para pegá-la. Sendo assim, seria obrigado a percorrer o mesmo trajeto novamente.

Quando por fim, Miguel conseguiu chegar até o empório, concluiu sua tarefa e percebeu que todo o percurso e tudo aquilo que havia presenciado fazia parte de um processo de aprendizagem que o tornava cada vez mais consciente de suas atitudes, escolhas e dos resultados. O seu trajeto percorrido era o seu purgatório onde permaneceria até que suas tarefas fossem terminadas e suas ações culminassem em resultados.

Ele escolheu virar para a direita...


Fonte da imagem: http://rodolphomaximo.wordpress.com/
Acesso em: 21/07/2011 01:56