quinta-feira, 21 de julho de 2011

O Passeio

Olá pessoal,

Está ficando cada vez mais difícil de escrever por conta da correria do dia-a-dia, mas hoje trago algo novo de minha própria autoria.

O texto a seguir é uma anotação de um sonho que tive, eu apenas consolidei as idéias e as coloquei numa ordem que faça sentido. Futuramente pretendo trabalhar melhor esse texto e extendê-lo com maiores detalhes.

Nesse texto escrevi sobre um mundo assolado pelos cavaleiros do apocalipse: Conquista, Guerra, Fome e Morte, mas que ainda assim, cheio de esperança e escolhas.

Espero que gostem.


O Passeio

Montagem feita por Rodolpho Máximo Fernandes


O sol brilhava forte no alto, Miguel pôde observá-lo da janela de seu quarto ao despertar. Sentiu um pequeno incômodo no estômago, lembrou-se que não havia jantado na noite anterior e que não tinha nada para o café da manhã. 

Decidiu então, levantar e sair de carro pela cidade a fim de comprar mantimentos e também para se divertir, afinal, estava de férias do trabalho e, portanto, deveria investir o tempo livre nas coisas que gostava de fazer. Dirigir era uma delas. 

O barulho do motor do Ford Maverick de 8 cilindros soava como música para os ouvidos de Miguel. Herdou o carro de seu pai, que havia se preocupado em deixá-lo em perfeitas condições.

O único empório que ainda estava ativo, ficava a 66,9 KM da cidade de Nascimento e havia um só trajeto a ser feito, uma vez que muitas ruas haviam sido severamente castigadas pelas chuvas fortes e frequentes.

Miguel iniciou seu percurso pela Rua Pirgoto e ligou o toca fitas para ouvir sua banda favorita, AC/DC. A música que estava tocando era Highway to Hell e estava quase na metade quando parou no primeiro semáforo. Tinha então três opções, esperar o sinal verde e seguir, virar para a direita ou virar para esquerda.

Quando Miguel olhou pela janela direita, viu um rapaz ceder o taxi que havia chamado à um casal de idosos. Também viu duas crianças rodando peões na calçada e sorrindo, e viu também uma moça que havia interrompido sua corrida para afagar um pequeno cachorro de rua.

Ao olhar pela janela esquerda, Miguel viu um homem aparentemente bem sucedido - que havia conquistado status social - desprezar um mendigo que, com lágrimas nos olhos, suplicava por uma moeda.
Viu também uma família que foi obrigada a se levantar da mesa de um restaurante para ceder lugar a um grupo de pessoas engravatadas. Não havia espaço para os mais humildes e generosos.

O sinal ficou verde e Miguel seguiu adiante refletindo sobre o que tinha acabado de ver. Mas alguns quilômetros adiante se deparou com outro sinal vermelho. Quando olhou pela janela direita, viu um casal de namorados se abraçando, um menino ajudando uma idosa a atravessar a rua, e pessoas de várias raças, cores e crenças juntas jogando bola. Mas quando olhou pela janela esquerda, viu essas mesmas pessoas separadas em grupos ofendendo umas as outras, um ônibus sendo depredado e pessoas pensando apenas em si mesmas.

Assim que o sinal abriu, Miguel seguiu em frente e rodou por mais alguns quilômetros pensando sobre o que havia presenciado. Parou então no terceiro sinal. Do lado direito havia frutas de todos os tipos, uma família fazendo piquenique, e um menininho repartindo o último pedaço de bolo com o irmão. Ao passo que, do lado esquerdo, as plantas estavam mortas e a fome assolava as pessoas. Os supermercados estavam com preços exorbitantes e ninguém tinha condições de se alimentar devidamente.

Quando o sinal abriu, Miguel saiu cantando pneus, pois o que tinha visto era muito forte. Desejou que seu Maverick não tivesse janela esquerda.

Por fim deparou-se com o quarto e último sinal fechado. Ao olhar pela janela direita, viu botões florescendo, um filhote de passarinho em seu primeiro vôo, e uma família comemorando após ter recebido a notícia de que um novo membro havia acabado de nascer. Não resistindo, olhou pela janela esquerda e viu pessoas morrendo por doenças, espancamentos, acidentes, causas naturais. Viu a morte em suas diversas faces.

Desesperado, acelerou forte e seguiu adiante.

Ao chegar ao pequeno empório onde sanaria sua fome, compraria medicamentos e itens para sua própria segurança, percebeu que havia esquecido sua carteira em casa e precisou voltar para pegá-la. Sendo assim, seria obrigado a percorrer o mesmo trajeto novamente.

Quando por fim, Miguel conseguiu chegar até o empório, concluiu sua tarefa e percebeu que todo o percurso e tudo aquilo que havia presenciado fazia parte de um processo de aprendizagem que o tornava cada vez mais consciente de suas atitudes, escolhas e dos resultados. O seu trajeto percorrido era o seu purgatório onde permaneceria até que suas tarefas fossem terminadas e suas ações culminassem em resultados.

Ele escolheu virar para a direita...


Fonte da imagem: http://rodolphomaximo.wordpress.com/
Acesso em: 21/07/2011 01:56

domingo, 19 de junho de 2011

Escolas filosóficas do período helenístico: o Epicurismo

Epicuro: fundador do "Jardim" - (341-270 a.C.)

"Que o jovem não espere para filosofar, nem o velho de filosofar se canse. Ninguém, com efeito, é ainda imaturo ou já está demasiado maduro para cuidar da saúde da alma. Quem diz não ter ainda chegado sua hora de filosofar ou já ter ela passado, fala como quem diz não ter ainda chegado ou já ter passado a hora de ser feliz."
Epicuro, Carta a Menequeu


Prelúdio


Durante o período que se seguiu após Alexandre Magno ter unificado o mundo antigo, a dinastia dos Ptolomeus quis fazer da cidade de Alexandria, um núcleo intelectual a fim de preservar a cultura grega e a oriental. Nessa época, enquanto a ciência progredia, a filosofia tornava-se privilégio de alguns poucos pensadores que não tinham interesse na pesquisa científica. Havia duas grandes escolas filosóficas nessa época: o Epicurismo e o Estoicismo (ABBAGNANO,2007,p.24-25).

O objetivo principal desse material é descrever os princípios básicos do pensamento de Epicuro, fundador da primeira grande escola filosófica, em ordem cronológica, do período helenístico. Neste trabalho, também será demonstrado o quanto o pensamento epicurista revolucionou sua época e influenciou o homem a não mais temer a morte e os deuses. 


A Origem do Pensamento de Epicuro


Epicuro nasceu por volta de 342/341 a.C., no entanto, seu local de nascimento é uma incógnita. Nos poucos textos que chegaram até nós, o pensador é apresentado como cidadão de Atenas, da dêmos (aldeia) de Gargetus, sendo levado mais tarde até a cidade de Samos onde já haviam alguns colonos atenienses. Outros autores, principalmente o erudito Festugière, consideram que Epicuro nasceu na própria cidade de Samos (MORAES, 1998, p.16).

Aos 12 anos de idade, Epicuro leu os poemas de Hesíodo, fundador da maior cultura literária helênica após Homero, porém, não entendeu o que o poeta descreve no verso que diz: “O primeiro a nascer foi o caos”, pois se tudo se origina do caos, donde se origina o próprio caos? – essa questão atormentava o jovem. Para Epicuro, era contraditório dizer que algo é a origem de tudo, sendo que tudo inclui obrigatoriamente todas as coisas possíveis e imagináveis (MORAES, 1998, p.17).

O jovem Epicuro não obteve respostas satisfatórias de seus mestres ao longo de sua formação, portanto, apropriando-se do atomismo de Leucipo e Demócrito e da moral do cirenaico Aristipo, desenvolveu uma nova interpretação e, com efeito, os princípios de sua filosofia cujo objetivo ser acessível a todos que estivessem dispostos a buscar a felicidade através da lucidez da serenidade da alma (MORAES, 1998, p.18-19).

Fiel à sua filosofia, Epicuro enfrentou os cruéis influxos do destino, diferentemente dos supersticiosos, sem atribuí-los à imaginária cólera divina.

[...] com pouco mais de 30 anos, Epicuro havia construído o essencial de seu pensamento, desenvolvendo, sobre os fundamentos do atomismo de Leucipo e Demócrito, seu original hedonismo, orientado não para os prazeres vulgares e imediatos, mas para aqueles que acompanham a firmeza do caráter e a lucidez da inteligência (MORAES, 1941, p.21).

Epicuro fundou sua primeira escola filosófica em Mitilene, na ilha de Lesbos ao norte de Samos. Não tardou, porém, a deslocar-se para Lâmpsaco onde reuniu muitos discípulos, entre os quais alguns ricos o bastante para oferecer-lhe condições de adquirir uma casa e um jardim na cidade de Atenas por volta de 307/306 a.C., sendo a primeira das grandes escolas filosóficas, em ordem cronológica, do período helenístico (REALE, 1990, p.237).


O Pensamento Epicurista


O próprio lugar escolhido por Epicuro para sua escola é a expressão da novidade revolucionária do seu pensamento: não uma palestra, símbolo da Grécia clássica, mas um prédio com um jardim (que era mais um horto), nos subúrbios de Atenas. O jardim estava longe do tumulto da vida pública citadina e próximo do silêncio do campo, aquele silêncio e aquele campo que não diziam nada para as filosofias clássicas, mas que se revestiam de grande importância para a nova sensibilidade helenística. Por isso, o nome “Jardim” e os “filósofos do jardim” (que, em grego, diz-se Képos) passou a indicar a escola e as expressões “os do Jardim” tornaram-se sinônimos dos seguidores de Epicuro, os epicuristas (REALE, 1990, p.237).

O Jardim de Epicuro - artista desconhecido


O pensamento de Epicuro resume-se em duas teses principais: o hedonismo (o prazer é o bem supremo) e o atomismo (MORAES, 1998, p.7), seu objetivo central é libertar o homem das superstições divinas e do temor da morte (MORAES, 1998, p.8).

A tese do prazer identificado como sendo o bem supremo, havia sido fortemente sustentada pelo cirenaico Aristipo, mas ganhou um significado diferente com Epicuro. De acordo com o pensador, não se tratava apenas de o ser humano buscar todos os prazeres que lhe parecesse bons, mas saber identificar os prazeres mais propícios para atingir a felicidade (MORAES, 1941, p.7). Ainda segundo Epicuro, tal felicidade pode ser alcançada por qualquer um através da filosofia (ABBAGNANO, 1984, p.36).

Já o atomismo remonta a Leucipo (séc. V a.C.) e a Demócrito (460-370 a.C.), no entanto, Epicuro concebe o mesmo compreendendo a ordem cósmica como sendo um efeito mecânico derivado do choque entre os átomos, com efeito, o princípio cosmogônico não possui qualquer intervenção divina.

Em relação a morte, esta seria apenas a separação dos átomos, portanto, não há castigos ou quaisquer punições inventadas pela ignorância e superstição (MORAES, 1998, p.8).
 
Os ensinamentos de Epicuro perduraram até o século IV d.C. (ABBAGNANO, 1984, p.35).


A Canônica


Epicuro chamou canônica, a disciplina que orienta o homem para a felicidade, através de critérios de verdade, constituídos por sensações, antecipações e sentimentos (ABBAGNANO, 1984, p.37).

De acordo com Epicuro, as sensações eram a realidade em sua totalidade, e a única maneira de captá-las, é através dos sentidos. A sensação é uma alteração produzida por algo cujo efeito é correspondente e adequado. Também é objetiva e verdadeira, pois é fruto da própria estrutura atômica da realidade. Os sentidos captam os simulacros constituídos de átomos tais como eles são (REALE, 1990, p.239).

Como segundo critério de verdade, Epicuro descreve as antecipações, que são memórias daquilo que se mostraram do exterior. Essa memória permite-nos conhecer antecipadamente as características das coisas correspondentes sem tê-las diante de nós.

Como terceiro e último critério de verdade, Epicuro coloca os sentimentos de prazer e dor. Estes sentimentos, segundo Epicuro, possuem a mesma objetividade de todas as demais sensações, porém, têm uma importância particular que é o critério para distinguir o bem do mal, constituindo assim o critério da escolha ou da não escolha.

Embora esses cânones possuam um valor de verdade em comum, o qual consiste numa evidência imediata, o raciocínio não pode lidar com isso, sendo uma operação mediadora, dando origem a opinião e, com ela, a possibilidade de erro (REALE, 1990, p.240-241). Por essa razão, os critérios de verdade criados por Epicuro foram determinados com base nos quais é possível distinguir as opiniões verdadeiras das falsas. São consideradas opiniões verdadeiras aquelas que são comprovadas e não desmentidas pela experiência e pela evidência. Obviamente, as opiniões falsas são aquelas que são desmentidas pela experiência e evidência e não são comprovadas.


A Física


“A ‘física’ de Epicuro é uma ontologia, uma visão geral da realidade em sua totalidade e em seus princípios últimos” (REALE, 1990, p.242). Esta pode ser caracterizada por 4 aspectos principais:

1 – “Nada nasce do não-ser”, do contrário, tudo poderia gerar-se de qualquer coisa sem um elemento gerador específico. E nada “dissolve-se do nada”, do contrário, tudo deixaria de existir. De acordo com Epicuro, isto é a realidade em sua totalidade; tudo sempre foi como é agora e sempre será assim.

2 – A totalidade da realidade é determinada por dois componentes principais: os corpos e o vazio. Os corpos são provados através dos sentidos, enquanto a existência do espaço e do vazio, através do movimento. Ao passo que, para que exista movimento, é necessária a existência de um espaço vazio para que os corpos possam se deslocar. “O vazio não é absoluto não-ser, mas exatamente ‘espaço’ ou, como diz Epicuro, ‘natureza intangível’. Além dos corpos e do vazio tertium non datur, porque não seria pensável nada que exista por si mesmo e não seja alteração dos corpos” (REALE, 1990, p.242).

3 – A realidade é infinita em sua totalidade, porém, cada um de seus princípios constitutivos deve ser infinito também. Um vazio finito não pode acolher corpos infinitos, com efeito, corpos finitos se perderiam num espaço infinito.
 
4 – Alguns corpos são compostos; outros, ao contrário, são simples e indivisíveis (átomos). A admissão do átomo se faz necessária, do contrário, a divisão dos corpos seria infinita, ocasionando a dissolução das coisas no não-ser.

O atomismo de Epicuro difere do atomismo de Leucipo e Demócrito em três aspectos essenciais:


1 – Os antigos atomistas atribuíam ao átomo três características fundamentais: figura, ordem e posição. Epicuro, por sua vez, atribui ao átomo: figura, peso e grandeza. Os átomos possuem formas diferentes – nem sempre geométricas, mas são todos de mesma natureza. Essas diferentes formas são necessárias para explicar as diversas qualidades fenomênicas que nos aparecem. O mesmo vale para a grandeza dos átomos. Quanto ao peso, este é necessário para explicar seu movimento (REALE, 1990, p.243).

De acordo com Epicuro, as formas dos átomos são finitas, pois, do contrário, poderiam variar até um tamanho visível. Ao passo que, o número de átomos é infinito.

2 – A introdução da teoria dos “mínimos”. Epicuro chama de mínimo a unidade de medida para a grandeza das partes do átomo. Segundo Epicuro, os átomos variam em tamanho e são compostos por partes distinguíveis, porém, inseparáveis. A estrutura do átomo é indivisível, portanto, suas partes devem se limitar a um mínimo de tamanho para não diminuírem ao infinito, o que seria absurdo.

3 – Os antigos atomistas falavam sobre os átomos se moverem em todas as direções. Ao passo que, Epicuro sustenta que eles se movimentam apenas em uma direção, no sentido de queda para baixo, num espaço vazio e infinito. A velocidade da queda dos átomos independe de grandeza e/ou peso.

Essa concepção de movimento levou à seguinte questão: “Como os átomos não caem segundo linhas paralelas, no infinito, sem nunca se tocar”? Em resposta a essa questão, Epicuro introduz a teoria da “declinação” dos átomos (clinámen), onde estes poderiam se desviar a qualquer momento num intervalo mínimo da linha reta, encontrando assim, outros átomos.

A teoria da declinação dos átomos também gerou dúvidas, pois ela contradizia a teoria de que, “do nada, nada procede” defendida por Epicuro, uma vez que, era ocasionada a partir do não-ser. Esse fenômeno foi classificado como sendo uma mera casualidade, já que não estava vinculado à sorte e nem à liberdade, que são atributos de corpos dotados de inteligência.

Dos infinitos princípios atômicos derivam infinitos mundos. Alguns são iguais ou análogos ao nosso, outros muito diversos. É pois de se notar  que todos esses infinitos mundos nascem e se dissolvem, alguns mais rapidamente, outros mais lentamente, na duração do tempo. Se bem que os mundos não são apenas infinitos na infinitude do espaço num dado momento do tempo, mas também são infinitos na infinita sucessão temporal. E, embora em cada instante existam mundos que nascem e mundos que morrem, Epicuro bem pode afirmar que “o todo não muda”. Com efeito, não só os elementos constitutivos do universo permanecem perenemente como são, mas também todas as suas possíveis combinações permanecem sempre atuantes, exatamente por causa da infinitude do universo, que dá sempre lugar à concretização de todas as possibilidades (REALE, 1990, p.245).


A Ética


A conclusão de que o bem é o prazer já havia sido extraída pelos cirenaicos, porém, ganha uma concepção diferente com Epicuro. Os cirenaicos sustentavam que o prazer é um “movimento suave”, enquanto que a dor, um “movimento violento” (REALE, 1990, p.245). Estes negavam um estado de quietude onde nem o prazer e nem a dor estavam presentes. Para Epicuro, esse estado intermediário é de extrema importância, é considerado o ápice do prazer.

Os cirenaicos também consideravam os prazeres e as dores físicas maiores do que os psíquicos. Ao passo que, Epicuro sustentava exatamente o oposto (REALE, 1990, p.246). O hedonismo de Epicuro, portanto, consiste na ausência de dor no corpo (aponia) e na falta de perturbação da alma (ataraxia).

Os prazeres deveriam ser alcançados através da sabedoria, que seria um instrumento para identificar aqueles que não causariam dor e nem perturbação. Em outras palavras, os prazeres mais propícios para atingir a felicidade (REALE, 1990, p.247). Epicuro distinguiu 3 grupos de prazeres para garantir aponia e a ataraxia:

1 – prazeres naturais e necessários: únicos prazeres válidos, pois amenizam a dor do corpo. São os prazeres ligados à conservação da vida, como por exemplo: comer quando se tem fome, beber quando se tem sede etc.

2 – prazeres naturais mas não necessários: variações supérfluas dos prazeres naturais, como por exemplo: comer bem, beber bebidas refinadas, etc.
 
3 – prazeres não naturais e não necessários: desejos relacionados a riqueza, honra, poder etc.

De acordo com Epicuro, o primeiro grupo de desejos é sempre satisfeito, pois tem um limite ideal, que consiste na eliminação da dor. O segundo grupo de prazeres, não tem o limite do primeiro grupo e intensificam o grau de prazer, podendo causar danos notáveis ao corpo. O terceiro grupo de prazeres, não elimina a dor e ainda causa perturbação na alma.

Com base nessas premissas, devemos nos concentrar nos prazeres do primeiro grupo, evitar os do segundo grupo e descartar totalmente os do terceiro grupo. Somente assim o homem é capaz de atingir a felicidade através da autarquia, que há muito se perdeu em meio ao contexto social onde predomina a política (REALE, 1990, p.247-249).


Conclusão


Com base nos fundamentos do pensamento de Epicuro, o homem não só se libertou do temor da morte e dos deuses, mas também compreendeu que, a felicidade poderia ser atingida por qualquer um, uma vez que o homem depende apenas dele mesmo para ser feliz. 

Epicuro não nega a existência dos deuses, mas sustenta que eles apenas não se ocupam dos assuntos do homem e do mundo. O mundo sempre foi o que é e sempre será dessa maneira, pois tudo o que se apresenta diante de nós, se gera a partir do choque mecânico entre os átomos, que, embora tenham a mesma natureza, possuem formas diversas.


Referências Bibliográficas


ABBAGNANO, N. Dicionário de Filosofia. Trad. Alfredo Bossi. São  Paulo: Editora Martins Fontes, 2007. 5ª Edição. p.24-25.
ABBAGNANO, N. História da Filosofia Volume II. Trad. António Borges Coelho. Lisboa: Editorial Presença, 1984. 3ª Edição. p.33-45.
MORAES, J. Q. de. Coleção Logos: Epicuro: as luzes da ética. São Paulo: Editora Moderna, 1998. 1º Edição. 110p.
REALE, G. História da Filosofia: Antiguidade e Idade Média Volume I - Giovanni Reale, Dario Antisieri. São Paulo: Editora Paulus, 1990. 3ª Edição. p.237-251.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

O Míto de Sísifo

Olá, pessoal!

Hoje iremos estudar o mito de Sísifo, interpretado pelo filosófo e escritor francês, Albert Camus.

Camus utiliza o mito de Sísifo para introduzir e sustentar o seu ensaio filosófico sobre o absurdo e o suicídio.

Porém, antes de começarmos, gostaria de agradecer imensamente minha companheira de trabalho, Andrea Mascarello, pois teve muita paciência comigo ao longo dessa pesquisa até que, por fim, entramos num acordo!

Espero que gostem da postagem e não pensem em se matar!

Abraços


O Mito de Sísifo


Sísifo, mítico fundador de Éfira, nome antigo da cidade de Corinto, é citado na Ilíada de Homero como sendo filho de Éolo, o rei de Corinto. É considerado o mais astuto e audacioso dos mortais, o único mortal a se casar com uma das Plêiades, Mérope, e ser aparentemente um dos primeiros gregos a dominar a escrita.

Algumas versões relatam que certa vez, o mais esperto e bem-sucedido ladrão da Grécia, Autólico, filho de Hermes e vizinho de Sísifo, tentou lhe roubar o gado. Os animais desapareciam gradualmente sem o menor vestígio do ladrão. Mas Sísifo ficou desconfiado, pois à medida que seu rebanho ia diminuindo o de Autólico só aumentava. Astuto como era Sísifo, começou a marcar os cascos de seus animais com um sinal, que, conforme se movimentavam, descrevia: “Autólico me roubou”. Ao fim deste episódio ambos ficaram amigos e Sísifo teria desposado a filha de Autólico, Anticléia, de onde nasceu Odisseu, um dos principais heróis do Ciclo Troiano. A lenda conta ainda, que, devido à sua paixão pela vida e rebeldia contra os deuses, Sísifo conseguiu enganar a morte duas vezes.

Sísifo viu acidentalmente Zeus raptar Egina, filha do Rio Asopo, e assim rapidamente delatou o fato ao pai dela em troca de uma nascente que o deus-rio fez brotar em Corinto. Zeus, furioso com Sísifo por ter revelado seu segredo, imediatamente enviou-lhe Tânatos, a morte. Mas, segundo Homero, Sísifo foi tão esperto que acabou encontrando uma maneira de aprisioná-la. Quis enfeitar o pescoço de Tânatos com um colar, mas que na verdade era uma coleira. Hades, ao ver seu reino empobrecido e silencioso, foi queixar-se para Zeus, que, interveio e libertou Tânatos, cuja primeira vítima seria Sísifo. 

“Contam também que Sísifo, já perto de morrer, quis imprudentemente pôr à prova o amor de sua esposa. Ordenou que ela jogasse seu corpo insepulto no meio da praça pública” (CAMUS, 2010, p.138). Ao chegar ao Hades sem as devidas honras fúnebres, o astuto Sísifo “mentirosamente culpou a esposa de impiedade e, à força de súplicas, conseguiu permissão para voltar rapidamente à terra, a fim de castigar sua companheira” (BRANDÃO, 1988, p.226).

Quando Sísifo retornou à terra, retomou seu corpo e fugiu com sua esposa enganando a morte pela segunda vez. Viveu por muitos anos até que um dia, Tânatos veio buscá-lo por definitivo. Sísifo foi condenado a empurrar eternamente uma rocha montanha acima, que, ao chegar ao topo, rolava para baixo devido ao seu próprio peso, sendo obrigado a recomeçar sua tarefa. Tal tarefa contínua e eterna fazia com que Sísifo não tivesse tempo pata descansar ou pensar em fugas. 


Mitologia

A interpretação do mito de Sísifo que Camus, filósofo e escritor francês propõe em sua obra “Le Mythe de Sisyphe”, publicada em 1942, nos permite aproximar Sísifo da vida atual e cotidiana. É através dela que Camus apresenta seu ensaio filosófico sobre o homem absurdo e o suicídio, portanto, o mito de Sísifo trata-se de uma questão existencialista.

Camus descreve o homem como homem absurdo, devido ao fato de que, ciente de sua condição e independente de suas ações, fatores sociais, étnicos, religiosos ou econômicos, terá apenas um único destino imutável, a morte.

Enquanto muitas pessoas abjuram de suas crenças para viver a vida em harmonia com a sociedade e aproveitando ao máximo, outras simplesmente encerram a própria vida por concluírem que ela não vale a pena ser vivida, pois o ser humano desde o seu nascimento está condenado a morrer e não há nada que se possa fazer para mudar isso. Camus, com base nesse raciocínio, levanta a questão sobre o que estimula o ser humano a encarar essa realidade, executar sempre as mesmas rotinas e não recorrer ao suicídio.

Segundo Camus, “só existe um problema filosófico realmente sério: o suicídio. Julgar se a vida vale ou não vale a pena ser vivida...” (CAMUS, 2010, p.17).

Camus aborda o suicídio como sendo uma reação contra o sentimento de absurdo. “Matar-se, em certo sentido, é como no melodrama, é confessar. Confessar que fomos superados pela vida ou que não a entendemos” (CAMUS, 2010, p.19).

Reconhecer que a morte é inevitável, que os gestos desempenhados ao longo da existência são ridículos e inúteis, é tomar consciência do quanto a vida é absurda. Esta consciência é ao mesmo tempo um profundo motivo para encurtar a existência.

Várias podem ser as razões que nos fazem viver: a nossa família, o amor a uma determinada pessoa, nosso amor próprio, mas vivemos sempre buscando uma razão em especial para justificar a nossa existência.

Camus dá uma atenção especial para a questão da religiosidade. Muitas pessoas se apegam a fatores religiosos para justificar ou acalmar certos anseios, certos questionamentos sobre vida. O religioso acredita muitas vezes que devemos viver intensamente e de maneira correta, pois algo maior e melhor nos espera após a nossa morte. O ser humano deve carregar sua pedra todos os dias, cultivar bons hábitos e praticar boas ações, assim, será presenteado com um lugar no paraíso ou um lugar no céu. Essa fé em algo que é superior a existência humana, superior a realidade, é o que move as pessoas religiosas a empurrar a sua pedra todos os dias, explica Camus.

De acordo com Camus, o Sísifo que é narrado não é tão diferente do homem atual e, por isso, pode-se fazer uma analogia entre seu mito e a vida cotidiana.

Cenários desabarem é coisa que acontece. Acordar, bonde, quatro horas no escritório ou na fábrica, almoço, bonde, quatro horas de trabalho, jantar, sono e segunda terça quarta quinta e sexta e sábado no mesmo ritmo, um percurso que transcorre sem problemas a maior parte do tempo. Um belo dia, surge o “por quê” e tudo começa a entrar numa lassidão tingida de assombro. “Começa”, isto é importante. A lassidão está ao final dos atos de uma vida maquinal, mas inaugura ao mesmo tempo um movimento da consciência (CAMUS, 2010, p.27)

Se dermos crédito a Camus, quando Sísifo foi condenado a rolar eternamente sua rocha até o cimo de uma montanha, os deuses haviam chegado à conclusão de que não existe castigo pior do que o trabalho inútil e sem esperança. No entanto, Sísifo é um apaixonado pela vida e está disposto a seguir adiante.

A rocha que Sísifo carrega pode ser compreendida como o fardo da morte ou condição imutável da vida, assim como, uma esperança ou algo que dê sentido à existência. O castigo de Sísifo é ao mesmo tempo seu estímulo para seguir adiante.

Camus explica que, enquanto Sísifo desce a montanha para recomeçar sua tarefa, ele respira e se torna consciente de sua situação. Mas é durante esse percurso que Sísifo desafia os deuses e se torna maior do que seu próprio destino. O homem atual realiza uma série de tarefas inúteis e sem esperança, sendo obrigado a se tornar criativo em sua repetição. Por muitas vezes, o homem absurdo reclama de sua condição e do quanto pesado é seu fardo, porém, são essas mesmas tarefas que dão algum sentido em sua existência – um propósito de viver mesmo sabendo que seu destino é a morte certa.

Deixo Sísifo na base da montanha! As pessoas sempre reencontram seu fardo. Mas Sísifo ensina a fidelidade superior que nega os deuses e ergue as rochas. Também ele acha que está bem. Esse universo, doravante sem dono, não lhe parece estéril nem fútil. Cada grão dessa pedra, cada fragmento mineral dessa montanha cheia de noite forma por si só um mundo. A própria luta para chegar ao cume basta para encher o coração de um homem. É preciso imaginar Sísifo feliz (CAMUS, 2010, p.141).

Genealogia


A genealogia de Sísifo é mencionada na Ilíada (Il. 6.152-5) e o seu castigo é descrito na Odisséia (Od. 11.593-600).


Literaturas sobre Sísifo

O diálogo filosófico Sísifo, durante muito tempo atribuído a Platão, nada tem a ver com o Sísifo lendário, apesar do título. No século V a.C., Ésquilo, Sófocles, Eurípides e Crítias escreveram tragédias baseados no mito de Sísifo, mas nenhum deles chegou até nós, da mesma forma que as comédias dos poucos conhecidos Apolodoro, poeta grego, (séc. IV/III a.C.) e de Lucius Pomponius, poeta romano (fl.c. -90).

Entre as obras modernas podemos citar Sisyphus: Na Operatic Fable, de Robert Trevelyan (1908) e outros vários poemas curtos, entre eles o de A.Rabbe (1924), Robert Garioch (1971?), Miguel Torga (1978), U.A. Fanthorpe (1982), Gary J. Whitehead (1997) e Stephen Dunn (2003). Mas a obra mais célebre e conhecida sobre o mito de Sísifo é o ensaio filosófico de Albert Camus, Le Mythe de Sisyphe (1942) (PORTAL GRÉCIA ANTIGA, 2008).


Sobre Albert Camus

Nasceu na Argélia, em 7 de novembro de 1913 e teve uma infância miserável devido a 1ª Guerra Mundial;

Escreveu “Le Mythe de Sisyphe” (O Mito de Sísifo – ensaio sobre o absurdo) em 1942, aos 29 anos de idade, sua obra mais ideológica. É considerado um filósofo existencialista;

Em 1957 é concedido à ele o Prêmio Nobel devido às suas obras;

Morre ao 46 anos em um trágico (e absurdo) acidente de carro, na França, em 4 de janeiro de 1960. Ele deixou de tomar um trem para Paris, sendo que já estava com a passagem comprada, para pegar carona com o editor de um de seus livros. Camus morre com o bilhete do trem no bolso.


Fontes de Pesquisa

PORTAL GRÉCIA ANTIGA – Sísifo - Disponível em:

BRANDÃO, JUANITO DE SOUZA - Mitologia Grega Volume I, Petrópolis, ed. Vozes, 1986.

CAMUS, ALBERT - O Mito de Sísifo, Trad. Ari Roitman e Paulina Watch, 8ª ediçao, Rio de Janeiro, ed. Record, 2010.

HOMERO, Íliada – Trad. Manoel Odorico Mendes, disponibilizado na web pelo grupo Quatro Contra Tróia em: www.iliadadeodorico.wordpress.com, 2009.

HOMERO, Odisséia – Trad. Antônio Pinto de Carvalho, São Paulo, ed. Abril, 1981.